Condominio Cultural São Paulo

Gestão de Espaços Culturais Colaborativos

Em julho uma das gestoras culturais do Vila, a Antonia, recebeu o convite das gestoras do Condomínio Cultural – o Condô, um espaço Cultural Colaborativo de Sampa – para fazer uma participação no curso de Gestão de Espaços Colaborativos no Centro de Formação e Pesquisa do SESC SP. Aqui ela conta um pouco das trocas que rolaram por lá.

Gestão de Espaços Culturais Colaborativos no Condomínio Cultural de São Paulo

* Por Antonia Wallig

A gestão de um espaço independente é um desafio constante no cenário da gestão cultural e envolve pessoas, equipamentos, programação, comunicação e o próprio espaço físico, sua manutenção e memória. Por isso, a ideia das gestoras do Condô, Jonaya e Géssica, para o curso era compartilhar as experiências e processos do Condô e do Vila Flores com pessoas que já trabalham em espaços colaborativos, ou que estão pensando em ativar um!

O intuito foi revelar algumas experimentações no campo da colaboração cultural, perspectivas de inovação em gestão e sustentabilidade, que aprendemos no dia a dia e na constante construção, desconstrução e reinvenção de nossas práticas. As duas chamam isso de “Gestão Criativa do Caos” e eu me  identifiquei muito com este “conceito” de gestão.  

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Foi demais conhecer o “Condô”,  que  é praticamente o primo paulista do Vila Flores – ou a prima, como escolhemos dizer,  já que tanto lá quanto aqui o núcleo gestor é composto em sua maioria por mulheres. O condomínio ocupa um antigo prédio na Vila Anglo Brasileira, onde também já funcionou uma escola e um hospital até o ano de 1995.

Como funciona a gestão do Condô?

O Condô funciona como uma associação de artistas e pessoas interessadas em discutir formas e potencialidades de convivência e está formalizada como Organização da Sociedade Civil de Interesse Público – OSCIP e credenciada como Ponto de Cultura. A ideia da criação do Condomínio Cultural surgiu no final de 2010, por pessoas interessadas em construir um espaço de liberdade onde fosse possível criar e experimentar. O lugar, depois de 15 anos de abandono, passou a ser transformado por meio da ocupação de diversos grupos e artistas, e desde então já passou por diferentes formas de organização.

Assim como o Vila Flores, o Condô é um espaço de convivência e experimentação e carregado de muita história em suas paredes.

Foram quatro dias de curso, nos reconhecendo em nossa práticas e processos, entre as gestoras e com os participantes, que também estão envolvidos em  projetos e espaços muito legais! Uma parte do curso foi mais  expositiva, em que falamos sobre os processos de constituição, gestão e comunicação do Condomínio e do Vila,  a outra foram exercícios dinâmicos e bem práticos  de autogestão financeira, autogestão de projetos e comunicação, que geraram ótima discussões.

Condominio Cultural São Paulo

Foto: Condomínio Cultural

No último dia, o grupo todo foi conhecer o espaço do Condô e fizemos uma caminhada pela Vila Anglo, bairro onde está localizado e que tem recebido muitas intervenções artísticas da comunidade, provocando a transformação da região pela convivência.

Durante os dias de curso e de partilha de experiências refleti sobre diversas coisas,  como o desafio de se fazer gestão quando se tem uma natureza artística e criativa. Como ter margem para criar novos projetos quando administrar o espaço e suas atividades toma um tempo considerável do dia a dia?

Entender com clareza a diferença entre fazer a gestão do espaço e a gestão de um projeto específico e também entre gestão de projeto e a produção de uma ação ou evento é fundamental, mas o principal é ter bem definido quem está envolvido em cada uma das funções.

O fator diferencial e mais importante de cada espaço colaborativo são as pessoas. É o tecido das relações entre as pessoas,  seus saberes e fazeres que vai determinando a essência e o conceito do espaço e quais processos de colaboração se tornam ativos na prática. A arquitetura, tanto no Vila quanto no Condô, também se transforma conforme o uso e as relações do coletivo entre si e com o lugar, tanto nos espaços de trabalho quanto de exposição, apresentação e abertura ao público a arquitetura é moldada pelas pessoas.

A maneira como nos unimos em torno de interesses em comum e habilidades complementares e como isso reverbera no contexto da convivência, não só dentro do espaço, mas do entorno (rua, bairro, cidade) faz com que a possibilidade de colaboração se potencialize. Mas, a sensação é que tudo são ensaios, experimentações, erros e alguns acertos. O maior dos acertos é sempre manter a possibilidade de rever os processos.

Ouvindo os participantes do curso falando de seus espaços, deu para entender que é pela vocação das pessoas que a vocação do espaço vai se definindo e redefinindo e a partir disso é muito importante desenhar processos para o coletivo. Quando os processos são definidos coletivamente eles têm terreno mais fértil para tornarem-se processos colaborativos, mas isso depende muito do  engajamento das pessoas. Os processos não são colaborativos pois assim foi definido, a colaboração é um processo orgânico e depende de muito envolvimento.

Condominio Cultural São Paulo

Foto: Condomínio Cultural

Ficou clara também, ao longo das conversas, a importância de um núcleo gestor, que tenha autonomia para tomar decisões no dia a dia. Pode haver alternância deste núcleo, mas é importante que estas pessoas se entendam como articuladoras e “puxadoras de processos” e estejam sempre observando a necessidade de rever as definições que foram acordadas, pois espaços que propõem a colaboração são regados de mutabilidade e permeabilidade.

No Vila Flores hoje já são mais de 100 residentes (pessoas que têm seus espaços de trabalho), no Condô são aproximadamente 70 (entre fixos e flutuantes). Em ambos há reuniões de todos os “residentes” e há as reuniões do núcleo gestor (que nos dois espaços varia de 4 a 7 pessoas). Nos exercícios de autogestão da comunicação me dei conta da tarefa superdesafiadora deste núcleo gestor, que é fazer uma comunicação interna eficiente e atraente, que realmente traga em si a possibilidade de conectar as pessoas entre si e com o espaço.

Estas foram algumas das reflexões que trouxe de volta comigo. Esta troca foi muito enriquecedora, pois assim vamos alargando a noção de comunidade, que compartilha não só espaço físico, mas espaços de conhecimento, propósitos, ações pelo bem comum, fomento, experiências de gestão e processos colaborativos.

A continuidade disso depende de muito engajamento, convivência e também de afeto. A ideia é em breve fazer o curso de Gestão de Espaços Culturais Colaborativos em Porto Alegre e em outras cidades, pois quanto mais houver a possibilidade de troca de experiências, mais chances teremos de aprimorar a nossa capacidade de colaboração em nosso espaços de trabalho e criação e para além  deles.

 

Um agradecimento super especial às “primas do Condô”, Géssica e Jonaya e ao Sesc Sampa, lugar que tão bem que acolhe a formação e a pesquisa na área da cultura. Precisamos muito!

 

* Antonia Wallig – Núcleo Gestor da Associação Cultural Vila Flores (ACVF)

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